APRESENTAÇÃO

Livremente inspirado em fato real, Meteoro narra as aventuras de uma equipe de engenheiros e técnicos determinados a construir a estrada Brasília-Fortaleza no âmbito do plano de metas do governo JK. Em um acampamento inóspito, a árdua rotina era quebrada pela observação de corpos celestes e pela visita mensal de um alegre grupo de prostitutas comandadas por uma exótica “Madame”.

O golpe militar de 1964 levou ao abandono do projeto e, posteriormente, do próprio grupo que passa a enfrentar privações ao lado das “meninas”. A queda de um meteoro faz a sorte mudar ao abrir um generoso açude entre a caatinga e o deserto. Nascia assim a comunidade de Meteoro, logo transformada em um oásis de utopia regido pelas leis do afeto, ausência de propriedade e harmonia entre as diferenças – étnicas, culturais ou sexuais. Treze anos depois, um novo objeto cruza os céus e pousa em Meteoro: desta vez, um helicóptero da FAB, que não trazia a fartura, mas a realidade política do país em plena ditadura.

Com direção e roteiro de Diego de la Texera, porto-riquenho de nascimento, documentarista premiado e há dez anos radicado no Brasil, Meteoro apresenta grande elenco: Claudio Marzo, Maria Dulce Saldanha, Lucci Ferreira, Paula Burlamaqui, Leandro Hassum, Daisy Granados, a musa do cinema cubano, o porto-riquenho Daniel Lugo, entre muitos outros.

Filmado em Juazeiro, Bahia, e nas dunas de Mundaú, no Ceará, Meteoro tem fotografia de Renato Padovani, figurinos de Yamê Reis, direção de arte de Yukio Sato e trilha sonora de Lui Coimbra e Marcos Suzano.

Uma produção Cinelândia Brasil Produções. 
Distribuição Imovision.

 

PARTICIPAÇÃO EM FESTIVAIS E PREMIAÇÕES

Cine en construcción – Festival de San Sebastian 2003
Festival de San Sebastian 2006 (Mostra Horizontes Latinos)
Festival Internacional de Porto Rico 2006 (Prêmio de Melhor Filme pelo júri popular)
Festival Internacional de Manaus 2006 (Seleção Oficial)                               
Festival Internacional de Santo Domingo 2007 (Prêmio de Melhor Trilha Sonora)
Festival de Toulouse, França 2007 (Mostra Panorama)
Festival de Lleida 2007, Catalunha, Espanha (Seleção Oficial)
Festival de HBO New York International Film Festival (Seleção Oficial)

 


SINOPSE CURTA

Nos anos 60, um grupo de trabalhadores inicia a construção da estrada Brasília-Fortaleza. Abandonados pelo governo militar e ao lado de prostitutas, fundam a sociedade utópica de Meteoro. Inspirado em fatos reais.

 

SINOPSE

No princípio dos anos 60, em plena euforia desenvolvimentista do governo JK, uma equipe encarregada de construir a radial Brasília-Fortaleza enfrenta dificuldades quando estranhas rochas impedem a construção da estrada. Entre os técnicos estão o geólogo italiano Raffaldi (Pietro Mario), o jovem topógrafo Aloísio (Lucci Ferreira) e seu grande amigo Gordo (Leandro Hassum), o ex-garimpeiro e dono da cantina Meirelles (Cláudio Marzo), o operador de rádio, o alemão Hans (Felipe Kannenberg).

Os mantimentos chegam periodicamente de caminhão pelo leito da estrada já construída e as longas noites encontram um alívio mensal com a chegada de um alegre grupo de prostitutas, comandadas por uma esfuziante Madame (Daisy Granados). Entre as moças, destacam-se a doce Nova (Maria Dulce Saldanha), e as exuberantes Eva (Paula Burlamaqui) e Iracema (Iracema Starling), entre tantas outras. Aloísio imediatamente encanta-se por Nova – e é correspondido, enquanto Gordo não tem tanta sorte. Eva, sua escolhida, prefere o introvertido Hans. Já Madame não esconde o xodó por Meirelles.

Após mais uma visita das “meninas”, chega pelo rádio a notícia sobre o Golpe Militar. Logo depois, as chuvas destroem o leito da estrada e o ônibus das prostitutas não regressa para buscá-las. Um avião solta os mantimentos de pára-quedas, até que um dia não volta mais. Não restam dúvidas: aquelas 40 pessoas foram abandonadas pelo Governo, entre o deserto e a caatinga, e entregues à própria sorte.   

Alguns partem em busca de ajuda e não retornam. Para piorar a situação, o rádio emudece. Tempos depois, isolados, esfomeados, sedentos, sujos e mal-humorados, o grupo presencia o impacto de um meteoro próximo ao acampamento, fazendo jorrar uma fonte de água. Com o fenômeno, chega também o sábio índio Julião (Siã Kaxinawa), para quem a bênção das águas tem um claro significado: é ali que aquelas pessoas devem permanecer após cavar um lago artificial e semear uma qualidade de vida melhor.

O vilarejo, batizado de Meteoro, passa a se desenvolver dentro de uma absoluta e bem-humorada anarquia: naquele grupo tão heterogêneo, tudo é permitido desde que seja para o bem comum. A paisagem muda, a aridez é substituída por um oásis e através das dunas, cinco anos depois, chega um novo personagem: o turco Ibrahim (Daniel Lugo), um entusiasmado mascate. Ninguém mais pensa em abandonar Meteoro. Famílias se formam, crianças nascem e crescem, brigas de casais são resolvidas por consenso, os mais velhos morrem.

Treze anos depois, um novo objeto luminoso aproxima-se de Meteoro – só que desta vez é um helicóptero da Força Aérea Brasileira. Os militares são recebidos com uma alegria que dura pouco: logo começam sessões de interrogatório e tortura em busca de ligações com guerrilheiros comunistas, embora um dos militares, o Major Arruda (Marcos Weinberg), discorde de tais métodos. Suspeito de ser o elo com a guerrilha, o índio Julião convence a comunidade que é chegada a hora da partida. A bandeira do Brasil erguida por Meirelles é dobrada. O grupo, triste mas esperançoso, deixa Meteoro em busca de um novo local para fincar a bandeira do país.


FICHA TÉCNICA

Direção e roteiro: Diego de la Texera
Colaboradores no roteiro: Marcos Bernstein e Regina Antonini
Produtora: Maria Dulce Saldanha
Produtora Executiva: Bia Castro
Desenho deProdução: Diego de la Texera
Diretor de Fotografia: Renato Padovani
Diretor de Arte: Yukio Sato
Diretor de som: Carlos Bolívar
Música: Lui Coimbra e Marcos Suzano
Designer de Efeitos Especiais: Martin Oesterheld
Montagem: Cezar D’Angiolillo e Marcelo Pedrazzi
Figurinista: Yamê Reis
Maquiagem: Bob Paulino e Vavá Torres
Cabeleireiros: Cristiane Régis, Pepê e Zica
Diretora Assistente/Diretora de Elenco: Cris D´Amato
Produtora de Arte: Fernanda Senatori
Contra Regra: Gegê
Microfonista: Alejandro Rivas
Operador de Câmera: Maurizio D´Astri e Isabella Fernandez
Operador de Steadicam: Fabrício Tadeu e Gustavo Pessoa
Foquista: Jorge Alves


ELENCO

Aloísio                             Lucci Ferreira
Nova                               Maria Dulce Saldanha
Gordo                              Leandro Hassum
Velho Meirelles                Cláudio Marzo
Madame                                 Daisy Granados
Eva                                         Paula Burlamaqui
Hans                                       Felipe Kannenberg
Iracema                                 Iracema Starling
Turco                                      Daniel Lugo
Dr. Raffaldi                            Pietro Mario
Eurídice                                  Gláucia Rodrigues
Ingeniero Inspirado            Zécarlos Machado
Nakamura                              Maiku Kozonoi
Clarice                                    Maria Marighella
Maria Aparecida                   Miriam Moraes
Maria Conceição                  Danielle Ornellas
Julião                                      Siã Kaxinawa
Troco                                      Alexandre Dacosta
Major Arruda             Marcos Weinberg
Muller                                     Jairo Matos
Ingeniero Alves Netto         Amaury Alvarez
Pelotudo                                Nicolas Trevijano
Cozinheiro                             Sérgio Pessoa
Cuiquinha                              Jucemar
Garotão                                  Jocelio Bello
Beto Rabeca                         Igor França
Ribeirinho                              Zé Adriano
Manolo                                   Gustavo Ottoni
Boca de Sapo                        Marinho Gonçalves
Cupuaçu                                Agnaldo Silva
Zé Paulistano                        Carlos Mariano
Jõ Paulistano                        Antônio Destro
Estrelinha                              Laila Duarte
Hansinho                               Sérgio Vieira
Tenente Costa                      Tuareg Silva
Salgado                                  Murilo Elbas
Piloto                                      Alexandre Moreno


PERSONAGENS

ALOÍSIO (Lucci Ferreira) – Topógrafo, bonito, educado, é o queridinho das meninas da Madame. Perde a cabeça e o coração por Nova, com quem se casa. É também o narrador da história de Meteoro.

NOVA (Maria Dulce Saldanha) - De origem circense, é descoberta por Madame e estréia como prostituta com Aloísio, ao lado de quem formará o primeiro casal de Meteoro. Acostumada a olhar o céu, é sensível, intuitiva e, acima de tudo, livre. 

GORDO (Leandro Hassum) - Carioca, brincalhão, melhor amigo de Aloísio. Engraça-se por Eva que prefere Hans, o Alemão e se cura da dor de cotovelo ao lado de Clarice. (Maria Marighella).

Dr. RAFFALDI (Pietro Mario) – Geólogo de origem italiana, é o líder natural da comunidade.  Viúvo, reencontra a sexualidade com Eurídice (Gláucia Rodrigues). É o primeiro morto de Meteoro – mas morre feliz.

VELHO MEIRELES (Cláudio Marzo) – Baiano, garimpeiro experiente, administra o restaurante de Meteoro. Bon-vivant, é importante mediador na democracia meteorense e querido de Madame.

MADAME (Daisy Granados) – Cafetina responsável pelo transporte das Meninas. Materialista convicta, com a abolição da prostituição adapta-se sem dificuldades às novas leis de Meteoro.  

EVA (Paula Burlamaqui) – Exuberante, sedutora, quer capturar seu homem, ser feliz, e ter muitos filhos.  Disputada pelo Gordo, opta pelo Alemão, com que realiza o sonho de ser mãe.  

HANS (Felipe Kannenberg) – Alemão de origem judaica, é operador de rádio de Meteoro. Resiste, mas cede aos encantos de Eva.

 

MARIA APARECIDA (Miriam Moraes) e MARIA CONCEIÇÃO (Danielle Ornellas) – Belas gêmeas negras são cobiçadas como um só personagem, a princípio por um engenheiro, depois pelo índio Julião.

IRACEMA (Iracema Starling) – Linda morena, sonha com um príncipe azul que um dia pinta sobre as dunas - foi amor à primeira vista compartilhado entre mil bugigangas trazidas pelo Turco para Meteoro.

JULIÃO (Siã Kaxinawa) – Cultua o respeito aos antigos e a convivência harmônica entre os elementos da natureza. Ao ser incorporado a Meteoro, age como se fosse o padrinho de toda a comunidade.

IBRAHIM, O TURCO (Daniel Lugo) – Libanês, mascate, hippie eterno, surge de azul nas dunas de Meteoro. Contaminado pela liberdade do local, parte mas retorna rapidinho para Iracema, o ócio e ser feliz sem culpa.

 


DIREÇÃO E ROTEIRO: DIEGO DE LA TEXERA

Diretor, roteirista, fotógrafo e produtor.  Nascido em Porto Rico, formou-se em Cinema e Literatura pela Universidade Nova York e participou do programa de formação do Directors Guild of America, entidade que agrupa os diretores dos Estados Unidos, do qual permanece como membro ativo.

Ativo militante de causas políticas e cinematográficas, fundou em 1971 a Sandino Films, Inc., produtora de documentários para televisão e filmes publicitários nos Estados Unidos. No fim dos anos 70, viveu na Nicarágua, onde participou da Segunda Guerra Sandinista (1959-1979). Foi um dos fundadores do Instituto Nicaragüense de Cine (INCINE),e diretor de El Danto, o primeiro filme rodado no país livre.

Em 1972 filmou El Salvador: el pueblo vencerá, sua obra mais conhecida, pela qual recebeu o Gran Coral no Festival de Havana de 1980, o Prêmio de Oro no Festival de Moscou de 1981, e o prêmio Fipresci (Festival de Lille), entre outros. Foi um dos fundadores do Instituto Cinematográfico de El Salvador Revolucio­na­rio (ICSR) e um dos co-fundadores da Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños (Cuba), onde dirigiu o curso de fotografia até 1987.

Entre seus filmes estão: Tesoro / 1987 (co-produção entre Cuba, Venezuela e Porto Rico sobre três adolescentes); Treetap/ 1996 (sobre índios e seringueiros na Amazônia); Flor de amor / 1999 (sobre a infância abandonada em San José, Costa Rica) e Opará, Opará / 2001, sobre o Rio São Francisco, além de dezenas de documentários.

Meteoro é seu primeiro longa-metragem de ficção realizado no Brasil onde vive há dez anos. Entre seus próximos projetos estão o filme Mari­ghella, e a conclusão do livro La Última bananera, sobre o General Sandino para a Editora Record.


ENTREVISTA COM O DIRETOR

Qual a origem de Meteoro?
Por volta de 1996, eu procurava temas para telefilmes na América Latina e em contato com Bruno Stroppiana, da produtora Sky Light, encontrei um pequeno texto em que ele narrava uma aventura vivida com três colegas, em 1978, quando, durante a realização de um documentário, encontraram um vilarejo entre a Bahia e o Piauí, criada por pessoas envolvidas na construção de uma estrada ao final do período JK. Com o golpe militar, elas foram abandonadas e criaram a comunidade Nova Holanda. Achei a idéia fascinante, que somei a outras experiências, como a convivência com Maria Dulce (produtora, atriz e mulher do diretor) e suas amigas, Paula Burlamaqui e Iracema Starling.  Paralelamente, eu estudava a história do Brasil, principalmente o período JK, marcado por um grande desejo de mudança e modernização. Comecei a pensar em um filme sobre pessoas não tocadas pelo golpe militar, voltadas para a criação de novos horizontes. Acrescentei óvnis e meteoros - um tema muito recorrente durante a construção de Brasília. Assim surgiu Meteoro.

Uma das marcas da comunidade de Meteoro é a convivência de pessoas de várias etnias e culturas: branco, negro, índio, japonês, alemão, português, turco, latino-americano.  Há paulistas, baianos, nordestinos. Como foi feito  esse “povoamento”?
Tentei reproduzir a formação do Brasil, integrada por tantas etnias e nacionalidades. Essas pessoas viveriam um Brasil utópico, entusiasmadas com a construção de uma sociedade perfeita. Meteoro é uma metáfora do que poderia ter acontecido e não aconteceu devido ao Golpe Militar. No entanto, criei também um militar “do bem”, como foram o Almirante Cândido Aragão, o General Teixeira Lott, o Coronel Baptista Neiva e o notório Sérgio “Macaco” e muitos outros militares de todas as armas. No filme, há uma grande distinção entre os militares de carreira e os torturadores. Procurei não criar personagens maniqueístas, mas pessoas com meios tons. E se não existiram militares assim, deveriam ter existido.

Além da integração de várias nacionalidades e sotaques, Meteoro apresenta também uma soma de gêneros e estilos:  semi-documental,  comédia, musical, fábula,  drama.  Como foi a definição do tom do filme?
Meu ponto de partida foi o que chamo de “cinema do coração” de Charles Chaplin, que  fazia filmes com personagens de fácil identificação com o público – o guarda, o bêbado, o milionário, o vagabundo, a vendedora de flores, o órfão, etc. Existe uma grande confusão entre estereótipos e arquétipos – eu trabalhei com arquétipos em um painel de 40 personagens. Quanto ao tom, o filme começa em Brasília de forma realista, quase documental sobre o início da construção da estrada e se estende até a chegada de Madame e das meninas, quando o estilo se suaviza.  Quando o grupo é abandonado naquele fim de mundo e o meteoro “cai” do céu, a narrativa se deixa impregnar pelo mistério, magia e fantasia do próprio lugar.  Uma mudança de tom natural, exigida pela própria história.

A mudança de tons é considerada um risco dramático e você parece ter trabalhado essa fusão de tons com muita liberdade.
Trabalhei com liberdade total e assumindo todas as minhas convicções. A dramaturgia ocidental se filia basicamente aos conceitos de Aristóteles e à psicologia freudiana. Quem não segue esses dois cânones, em princípio, está errado. Decidi ir por outros caminhos: a psicologia dos arquétipos de Jung e a dramaturgia brechtiana. Eu sabia dos riscos e quis correr todos. Caso contrário, teria feito um filme qualquer. Vejo Meteoro como um rio que começa em linha reta e passa a fazer várias curvas, parecendo não saber aonde vai chegar – e convida o espectador a acompanhar essa viagem – que sempre chega ao mar.

A história de Meteoro se passa ao longo de 13 anos, não tem protagonistas e um amplo painel de muitos personagens. Como foi a feitura do roteiro?
O argumento – cerca de 25 páginas – foi surpreendentemente rápido – talvez uma noite. A primeira versão do roteiro também não demorou muito – 15 dias no Rio, 15 dias em Búzios. Depois chamei dois colaboradores: Marcos Bernstein, que me ajudou principalmente na questão estrutural, e Regina Antonini, que contribuiu com toques femininos – ela arredondou, aprofundou e apimentou várias situações das “meninas”.

Como foi feita a escolha de um elenco tão heterogêneo?~
Alguns atores surgiram naturalmente, à medida que escrevia e reescrevia o roteiro, e outros vieram através de busca com amigos ou juntos a atores de teatro, de cinema. Não fazíamos questão de nomes famosos mas de atores com a “cara” dos personagens, fosse um ator jovem, como Lucci Ferreira, ou um veterano, como Cláudio Marzo. Cris d´Amato como diretora de casting, foi um grande diferencial nessa seleção que somou de  40 a 45 atores e 70 figurantes. Pietro Mario (o geólogo Raffaldi), foi o Capitão Furacão da TV Globo nos anos 60 – um achado. Eu também queria um toque de integração latina. E convidei uma velha amiga, Daisy Granados, para o papel de “Madame”. Escrevi o papel do turco Ibrahim com Daniel Lugo na cabeça - um dos grandes atores de Porto Rico. Já Maria Dulce, como Nova, foi a escolha mais fácil – escrevi o papel pensando nela. A maior dificuldade foi a escalação do índio.

Por quê?
Desde o início eu pensava em escalar um índio autêntico. Por incrível que pareça, o papel de Julião foi inspirado por um índio que eu conhecera há muitos anos, Siã, cacique dos Kaxinawas, tribo do Acre ligada ao extrativismo vegetal., mas tinha perdido o contato com ele. Realizei testes com vários índios atores, mas não fiquei satisfeito. E foi nesta situação que magicamente reencontrei Siã. Quando o convidei para o papel, ele disse que primeiro queria fazer um teste. Fez e obviamente, passou. Siã não precisava interpretar um índio porque ele é um deles - aprendeu a falar português aos 14 anos e preserva uma grande sabedoria e simplicidade.

E como foi a direção de atores?
Estimulei a improvisação, a invenção, e os atores enriqueceram muito a história. O elenco era formado basicamente de pessoas simples e de fácil convivência. Eu buscava uma naturalidade dos atores, uma sub-atuação, tipo Humphrey Bogart, para dar a sensação de realismo absoluto. A loucura deveria vir pela história. O realismo mágico da segunda metade do filme não deveria estar nas atuações mas nas situações e na contraposição entre uma atuação “baixa” e acontecimentos extraordinários. Filmei dois, três takes no máximo. Criei um dossiê com a história de cada personagem e distribuí por todo o elenco. Como os atores eram em sua maioria jovens e não viveram os anos JK, a maior parte desse background veio do livro Aos trancos e barrancos, de Darcy Ribeiro. A descoberta de duas locações: - o vale do Salitre, em Juazeiro, na Bahia, e as Dunas de Mundaú, no Ceará, concretizaram uma história que eu tinha na cabeça.

Em Meteoro, a música tem uma presença muito expressiva e variada: samba, tango, bolero, uma trilha sinfônica com tons árabes
Tem também uma tarantela, salsa, sons nordestinos. Para mim, filme é música, e se desenvolve como uma partitura musical. Tive a sorte de contar com Lui Coimbra e Marcos Suzano que criaram uma trilha esplendorosa, vencedora de um festival de trilhas em Santo Domingo. A música tem papel fundamental em Meteoro - e pensei em somar tons árabes à cultura nordestina. Estudei o assunto e descobri que a presença árabe foi muito forte nas primeiras décadas do século XX – a confirmação de uma intuição.

Como você estabeleceu o conceito visual de Meteoro?
A palavra que esteve na minha cabeça desde o começo foi “singelo”. Quando conversei a primeira vez com o fotógrafo Renato Padovani  falei:  “quero um filme clássico italiano”. Pensei em filmes como  Amarcord, Mediterrâneo, A Noite de San Lorenzo. E confiei no Renato, que tinha sido um dos personagens da história – ele estava no grupo que “descobriu” Nova Holanda em 1978.

Como foram as filmagens, levando em conta a concentração de tantos atores em uma só locação?
Um baile perfumado. Obviamente surgiram pequenos problemas, mas nenhum que tirasse a alegria das filmagens. Eu fui a uma guerra rodeado dos melhores soldados. Por questões de produção, as filmagens foram realizadas em duas etapas – a primeira, durante sete semanas e meia em Juazeiro (junho/agosto de 2002), a segunda, três semanas em Mundaú (outubro/novembro de 2004). Meteoro foi um filme tão mágico que até este intervalo foi proveitoso – um momento de repensar, reformular, respirar. Gostei tanto que agora, só pretendo filmar em duas etapas.

Você foi a Nova Holanda, que inspirou a criação de meteoro?
Visitamos sim, uma cidadezinha perdida entre Piauí e Bahia. Curiosamente, ela tem poucos resquícios dessa história. Já se passou muito tempo, a vida se transformou – muitas pessoas nem se lembram daquele começo heróico. Talvez eu faça uma exibição do filme lá, vamos ver.

Meteoro fala de uma sociedade utópica – sem propriedade privada, com harmonia entre as diferenças, predomínio do bem comum, conceitos bem distantes do mundo contemporâneo, considerado sem utopia. Como você vê o encontro de Meteoro com o público?

Sou um lutador pela independência do meu país, lutei pela independência da Nicarágua e de El  Salvador. Talvez, segundo um modelo histórico dominante, fomos derrotados, mas há também ex-guerrilheiros assumindo o poder. A utopia foi derrotada? Não sei, mas certamente a justiça e o desenvolvimento social não serão obtidos pela obediência às leis neoliberais. Considero a necessidade da utopia a questão crucial do século XXI. Na minha opinião, utopia é o que mais faz falta – o consumo desenfreado de grifes já provou que não leva a nada – só a mais desgraça. Meteoro mostra pessoas felizes porque, no meio do nada, encontraram valores essenciais: amor, companheirismo, diálogo, natureza, sexo, solidariedade.  Meteoro não é um filme sobre conflito mas sobre a harmonia. Uma comédia fabular com um final triste mas esperançoso. O sonho não acabou nem acabará – nunca.


ENTREVISTA COM MARIA DULCE SALDANHA / PRODUTORA E ATRIZ (NOVA)

Carioca, de formação teatral, ainda adolescente fez cursos com vários diretores (Roberto Bomtempo, Domingos de Oliveira, Tizuka Yamasaki, Luiz Fernando Lobo). De 1988 a 1990 viveu na França, onde trabalhou com dança, circo e sapateado. De volta ao Brasil, trabalhou na TV Globo (Você Decide) e na novela Amazônia, com direção de Tizuka Yamasaki, com quem viajou a Cuba, em 1991, onde conheceu Diego de la Texera. Viveu em Porto Rico e em Nova York e realizou um filme no México (Bienvenido, Welcome).

Como surgiu a idéia de produzir Meteoro?
Eu queria começar a carreira de produtora com um curta, mas ao ler a sinopse de Meteoro me apaixonei pela história. Conversei com Diego e nos demos força para seguirmos com o projeto. Quis produzir o filme porque sou idealista: acredito que o sonho tem que continuar e que a arte é um instrumento de aprendizagem maravilhoso, Achei linda a formação da utopia em Meteoro – me senti muito brasileira, fiquei mais patriota. Por ter vivido em vários países, já estava contagiada pela noção de integração latino-americana, e o filme reflete esse aspecto. Meteoro bateu em coisas que acredito: harmonia entre as diferenças, uma sociedade sem qualquer tipo de descriminação.

Como foi o processo de captação e a organização da produção?
A captação começou em 2000. Batalhamos muito – conseguimos 22 patrocinadores e o apoio dos governos da Bahia e Ceará.  Tivemos muita sorte – ouvimos mais “sim” do que “não”. A sorte se estendeu à escolha das locações. A primeira que visitamos – o Vale do Salitre, em Juazeiro da Bahia, era perfeita, pois tinha até um morro que interrompia a estrada, exatamente como precisávamos. Para a segunda fase, descobrimos as dunas de Mundaú, no Ceará. A produção foi árdua, mas muito estimulante: não queríamos apresentar miséria, pobreza, mas uma certa “confusão" estética com um toque fashion, de modernidade: o ônibus que trazia as meninas, por exemplo, era prateado”. Trabalhamos cinco meses na pré-produção, que envolveu inclusive o alargamento de uma estrada, a perfuração de um poço artesiano e a construção de uma pista de pouso para o nosso avião de cena.

E como você viveu as filmagens desta sua primeira produção?
As filmagens foram desgastantes, mas graças a uma afinação muito grande do elenco e dos técnicos vivemos uma atmosfera utópica de Meteoro sob um céu inspirador. Enfrentamos três semanas de noturnas em Juazeiro, e o set do acampamento ficava a 45 minutos de carro do hotel. Em Mundaú era delicado fazer a continuidade de cenas com dois anos de intervalo mas, graças ao desejo e empenho do elenco e da equipe, conseguimos. Ainda no espírito de integração latino-americana, optamos por finalizar o filme na Argentina (montagem, pós-produção, mixagem, edição de som), e trabalhamos com uma equipe que contou também com profissionais da Venezuela.

Não foi pesado acumular os papéis de produtora, atriz e mulher do diretor?
Trabalhar com Diego foi muito tranqüilo, e na verdade, ele me acalmava. Trocávamos muito, eu o apoiava nas decisões artísticas – toda a escolha do elenco, por exemplo, foi feita em consenso. Ele é um diretor experiente – filmou guerras no meio de tiroteios. Filmar no sertão foi um passeio para ele. Diego não é um guerrilheiro intelectual ranzinza – ele é alegre, leve, feliz. E transferiu essas características para o set e para o filme.

E como você define sua personagem Nova?
Ela é de uma grande pureza, intuitiva, espontânea. Ela vem do circo e entra para a prostituição por falta de opção. Nova é uma libertária ao mesmo tempo suave e forte. Interpretá-la foi um refresco perto dos problemas da produção e um enorme prazer.


DEPOIMENTOS

Paula Burlamaqui / Produtora Associada/ Eva

Atriz de TV, atuou nos filmes Paixão Perdida, de Walter Hugo Khoury, O Circo das Qualidades Humanas, de Milton Alencar, Viva Sapato, de Luiz Carlos Lacerda, além de curtas.

Fiquei entusiasmada com Meteoro desde a primeira leitura do roteiro a ponto de ajudar na captação. Trabalhamos com muita persistência e acho que valeu a pena. Acredito que o filme vai bater em todas as gerações, pois ele tem uma mensagem de otimismo, de construção de uma sociedade melhor, de solidariedade e harmonia entre as diferenças. Sem dúvida se todos vivessem a utopia de Meteoro, o Brasil seria um país bem melhor”.

Sobre Eva: Eva é uma delicia –  uma mulher exuberante, que chega ao acampamento e de cara se apaixona pelo alemão (Hans), apesar de despertar paixão no Gordo. As filmagens foram ótimas  e todo o elenco muito bacana. Tivemos aula de postura e estudo de gestual a partir de pesquisas de comportamento dos anos 60. Apesar de prostitutas, as “meninas” tinham classe, um glamour que hoje não existe mais. Elas são puras, elegantes, angelicais, acreditam no amor - todas querem casar, ter filhos: são prostitutas românticas”.

Daisy Granados (Madame)
Uma das musas do cinema cubano, trabalhou em Memórias do Subdesenvolvimento (Tomás Gutiérrez Alea) e em vários filmes dirigidos pelo marido Pastor Vega, falecido em 2005: Retrato de Teresa, Habanera, Vidas Paralelas, As profecias de Amanda que rendeu à atriz um Kikito no Festival de Gramado em 2000, ano em que recebeu o  convite para interpretar “Madame”.

Sobre Madame: Quis interpretar Madame desde a primeira leitura do roteiro, que me foi dado por Diego e Maria Dulce no Rio de Janeiro após o Festival de Gramado. É sempre difícil atuar em outro país e outra língua, mas após alguns dias de filmagens me senti em casa, em meu próprio país. A convivência com o elenco e a equipe foi excelente e gostei particularmente da direção de Diego – o amigo de sempre – que me fez sentir muito segura. As locações no deserto eram maravilhosas, a cenografia colossal – parecia que aquele vilarejo sempre existiu. Meteoro conta uma história fantástica e tomara que algum dia a humanidade consiga formar uma comunidade assim. Guardo na memória momentos extraordinários, do set, dos dias livres, das festas, dos forrós! Ter trabalhado em Meteoro foi mais do que uma agradável experiência profissional – foi a confirmação de que devemos lutar cada dia mais para que os cineastas latino-americanos façam seus filmes, não importa onde tenham nascido ou vivido.”


Lucci Ferreira (Aloísio)

Nascido na Bahia, ator de cinema, teatro e TV, destacou-se na série JK (TV Globo). Seu mais recente trabalho na TV foi na novela “Páginas da Vida”. Atuou no filme Mulheres do Brasil, de Malu de Martino.

Sobre Aloísio:Aloísio representa o progresso que ocorria no país. Ele é um personagem visionário que encarnava as palavras de JK, mas é também um romântico. Diego soube conduzir muito bem um elenco tão numeroso que representava tantos aspectos do povo brasileiro. Gostei muito das filmagens – Diego sabe o que quer e ao mesmo tempo abre uma porta para o ator se colocar e se achar. Aprendi muito. A convivência em Juazeiro foi muito boa e de certa forma repetimos a sociedade alternativa do filme que não tem protagonista e conta a história do grupo. Meteoro tem um olhar fraterno sobre o ser humano, e por mais que se diga ou se pense que esses valores “caíram de moda”, eles são mais necessários do que nunca: é sempre bom sonhar com uma sociedade mais justa e mais humana – isso não só é possível como necessário”.

Cláudio Marzo  (Velho Meirelles)

Um dos mais versáteis atores do país, tem entre seus principais filmes Nunca Fomos Tão Felizes, , de Murilo Salles,  O Homem Nu, de Hugo Carvana, O Xangô de Baker Street, de Miguel Farias, além de muitos outros.

Sobre Meirelles: “Me apaixonei pelo roteiro desde a primeira leitura, pois sua história é também um pouco a história do Brasil. Me senti parte tão integrante do filme que assumi o papel de “fiscal do roteiro” – zelando para que aquela emoção inicial não se perdesse. Diego é um líder nato – ao mesmo tempo hábil e gentil – e transformou as filmagens em uma experiência inesquecível. Meirelles é um homem muito livre e muito íntegro, e embora não seja o narrador da história, é uma figura da maior importância para a formação de Meteoro. Ele enfrenta as adversidades dentro de seus princípios e valores, sem nunca se corromper. É um personagem delicioso – talvez o mais marcante que tenha feito no cinema. Meteoro é emoção pura ao falar de utopia. Talvez a utopia retratada pelo filme não exista mais, mas que dá muita saudade, isso dá”

Leandro Hassum (Gordo)

Ator de teatro, cinema e TV, uma das mais importantes revelações de humor dos últimos anos, destacou-se como Jorginho, do quadro Os Seguranças, no programa Zorra Total. Entre seus filmes estão Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, Tainá 2, de Mauro Lima, e O Mistério de Irmã Vap, de Carla Camuratti. Meteoro marca sua primeira atuação no cinema.

Sobre Gordo: “Diego soube construir um filme muito verdadeiro, meio ficção, meio realidade, que tem como elemento principal o humanismo e a solidariedade dos personagens. O Gordo pode ser às vezes meio patético mas é também uma pessoa muito carinhosa. E prova quando Eva (Paula Burlamaqui) tem o filho e, mesmo sabendo que não é dele, pergunta a Aloísio (Lucci Ferreira): “Ele é gordinho?”. Adorei o processo de filmagem – Meteoro foi o meu primeiro longa – e o filme prova que na hora do sufoco o brasileiro sabe se unir para conseguir as coisas.”


Daniel Lugo (Turco)
Um dos mais populares atores de Porto Rico, atuou em diversas produções latino-americanas. 

Sobre Turco: O Turco é o eterno aventureiro que obedece apenas à intuição de seu coração. Traficante de alegrias, poeta da sobrevivência, do eterno, nobre herdeiro das areias do deserto. Interpretar um personagem tão distante de mim em um idioma que não domino constituiu um grande desafio. Hoje posso dizer que me alegro da confiança de Diego e que me motivou a aceitar o desafio. O resultado que está na tela me deixa muito feliz e orgulhoso. Ao lado de companheiros – atores, técnicos e de produção – vivi uma experiência maravilhosa e inesquecível”.

Renato Padovani  / Direção de Fotografia

Nascido em Córdoba, na Argentina, vive no Brasil há mais de 30 anos. Entre seus filmes como diretor de fotografia estão Tormenta e Por Incrível que Pareça (de Uberto Mollo), Viva Sapato, (de Luiz Carlos Lacerda), Mais uma vez amor (deRosane Svartman), Ismael e Adalgisa (de Malu de Martino) e Sexo com Amor (Wolf Maia), entre outros. Curiosamente, é parte integrante da história de Meteoro, pois integrava a equipe de documentaristas que descobriu a comunidade de Nova Holanda, em 1978.

O filme tem duas fases: antes e depois da queda do meteoro. A primeira é mais realista – e gira em torno da construção da estrada. Na segunda, entram o sonho e a utopia. Essas duas fases, que correspondem também a duas locações básicas, tiveram um tratamento fotográfico diferenciado: a concepção mais realista inicial é seguida por uma atmosfera mais irreal, às vezes mágica, transmitida por enquadramentos e escolha de lentes - ou muito abertas ou muito fechadas.

Meteoro segue uma narrativa clássica, sem pretensões ou rebuscamentos formais. Diego queria contar aquela história de uma maneira simples – o que não significa ausência de desafios: não é fácil filmar em dunas, que mudam o tempo todo com o vento, e o sertão tem uma luz especial – às 9 da manhã o sol já está a pino.

O maior desafio, no entanto, foi captar o lado humano de uma história sem protagonistas contada por 40 atores. O trabalho com Diego foi excelente: ele tem uma grande sensibilidade e é um humanista sempre em  busca da emoção, do interior do personagem.

O filme contou com a natureza a seu favor: quando o índio Julião retorna, formou-se magicamente um rodamoinho em uma duna – um presente da natureza que acontece quando se está em sintonia. E recebi um presente especial na penúltima noite, quando voltando de um jantar vi um meteoro – inesquecível.

Para mim, as filmagens de Meteoro tiveram ainda um significado especial, pois eu estava no grupo que “descobriu” Nova Holanda em 1978 durante a realização de um documentário. É interessante constatar como o passado interfere no presente das maneiras mais inesperadas. Por que aquele grupo decidiu pegar a picada no meio da estrada principal? Sabíamos que a estrada sairia numa BR, mas não sabíamos o que encontraríamos até chegar lá. Foi uma decisão tomada em alguns minutos que 30 anos depois provoca repercussões com um belo filme que fala da utopia e da tolerância”.


Yamê Reis / Figurino

Com larga experiência em TV (Estrela Guia, Sabor da Paixão, Vida ao Vivo), tem em Meteoro sua estréia como figurinista de cinema.

“A marca do filme é contar a história de um grupo através de uma longa passagem de tempo que começa nos anos 60. Fizemos uma vasta pesquisa sobre a época e sobre o comportamento das mulheres de programa, que não queríamos vestir de “prostitutas”. Buscamos a sensualidade e não o estigma.
Foram criados cerca de 320 figurinos (uma média de seis para cada ator e cerca de 95% foram desenhados e confeccionados – fora algumas peças compradas em brechós. As roupas tinham que apresentar a marca da escassez e do desgaste do tempo: somente a partir da chegada do turco as roupas ganharam acréscimos e acessórios.

O maior desafio foi justamente acentuar a passagem de tempo na escassez sem criar  monotonia: “as meninas” tinham que inventar novas roupas com o material disponível no acampamento – fosse toalha de mesa ou lona de caminhão.

Procuramos um colorido forte para os figurinos, pois eles eram a cor em um ambiente inóspito. Nova vestia muito verde, amarelo e azul, símbolo da esperança e do idealismo que ela representava. Já as outras meninas, vestiam muito vermelho, pink, coral, amarelo. A roupa da Madame tinha traços misturados de exotismo, pois sua origem é misteriosa. Nas roupas masculinas, é importante lembrar que na época não havia calça jeans, mas sim um modelo pré-jeans, de brim que não desbotava.

O set de Meteoro foi uma verdadeira “Babel do Bem” – Diego é um visionário e as filmagens aconteceram em clima de grande alegria e harmonia”.

Lui Coimbra e Marcos Suzano / Trilha Sonora

Parceiros há mais de 15 anos – integraram o conjunto Aquarela Brasileira – os músicos Lui Coimbra e Marcos Suzano ainda não tinham feito uma trilha sonora para um longa-metragem.  Neste depoimento, Lui Coimbra fala do processo de criação de mais de uma hora de composição que já proporcionou o prêmio de melhor trilha no Festival Internacional de Cine de Santo Domingo.

Tudo começou com o pedido de Diego de uma música para ser tocada por um dos personagens. Com a leitura do roteiro, decidimos criar uma música em cima de rabeca, pandeiro, violão e acordeão. Diego gostou e nos convidou para fazer toda a trilha. Esse tema inicial serviu de base para a trilha, com vários tratamentos, inclusive orquestração. Convidamos alguns músicos da pesada – como Carlos Prazeres (oboé), Ubirajara, um gênio de 83 anos no bandoneon, Marcos Nimirichter no acordeão, e uma orquestra de cordas. Diego é um diretor muito musical, ele tinha o filme muito claro e definido e nunca se desviou do objetivo. O roteiro continha as indicações da trilha, como a criação de uma melodia com ressonância árabe para a chegada do turco, assim como a integração de várias músicas – como o bolero “Rayito de Lunae o tango “Mano a Mano”, de Gardel. Criamos cerca de uma hora de trilha, ficamos muito satisfeitos e tenho que creditar nossa felicidade ao carinho e ao espaço que Diego nos deu para compor. A experiência foi tão boa que só pensamos em repeti-la”.